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Marketing

por MC, em 27.03.16

“Ó madrinha”, diz-me a minha afilhada caloira, “estou a gostar muito da universidade: o curso está a ser muito giro e alguns professores são mesmo bons, fazem-nos pensar”. Olha que coisa boa, professores que fazem pensar, matutei eu, e não resisti à alfinetadazinha: “e não estavas habituada, não?”

Acusou o toque com um sorriso rasgado, ou não convivesse ela há quase duas décadas com o sarcasmo intrínseco desta sua madrinha-mãe do coração, a primeiríssima pessoa a recebê-la neste mundo.

“Oh… não é isso!”, reclama ela teatralmente, e sente-se na obrigação de exemplificar: "olha, há uma aula - que é a minha preferida – em que o professor, no início da aula, em vez de começar a ensinar coisas da disciplina, conta uma história. Mas assim histórias muito simples, como as que se contam às crianças – nós ao princípio até pensávamos que era ele a gozar connosco. Só que depois começa a pôr questões, a colocar hipóteses, a perguntar a nossa opinião sobre a situação lá da história e quando damos por ela, pimba! – já estamos a dar matéria!” 

Sorrio para ela, um sorriso silencioso que espelha a alegria do seu olhar e a incentiva a continuar: “no primeiro dia de aulas, ele chegou e nem sequer disse bom dia, começou logo a contar: era uma vez um fabricante de sapatos que andava a vender pouco e resolveu contratar vendedores para espevitar o negócio. Apareceram-lhe dois candidatos para a entrevista de trabalho. O homem disse-lhes que procurava bons vendedores de sapatos e que iria fazer um teste para perceber se algum deles poderia desempenhar aquele cargo. Falou-lhes de uma região distante e inóspita onde nunca tinha tentado comerciar e incumbiu-os de ir avaliar as possibilidades de vender sapatos aos habitantes de tal lugar. Os dois candidatos lá foram cumprir a sua tarefa e voltaram uns dias mais tarde. O primeiro a regressar disse ao futuro patrão: ‘olhe, o melhor é procurar outro lugar para vender: aquela região é praticamente um deserto, as pessoas andam todas descalças na areia, ninguém usa calçado e, portanto, vai ser muito difícil vender sapatos lá.’ Depois chegou o segundo candidato, que declarou: ‘olhe, aquela região é uma mina! O local é praticamente um deserto, as pessoas andam todas descalças na areia, ninguém usa calçado e, portanto, podemos lá vender sapatos a todas as pessoas!’”

Tás a ver, madrinha, ele contou-nos esta história e depois ficou em silêncio a olhar para nós. E nós para ele. E depois disse: ‘todas as pessoas nesta sala que acham que o primeiro candidato tinha razão não estão a fazer nada neste curso. Podem ser muito bons alunos e estudar muito e ter muito bons resultados académicos, mas não vão ser felizes neste curso. Dou-vos a possibilidade de sair antes de vos maçar mais.’ Mas ninguém saiu, madrinha. Até hoje ninguém saiu”.

Estivesse lá eu, cismei, seria a primeira a sair. Sou a pior vendedora do mundo. Sou incapaz de vender seja o que for a alguém. Nada. Nem uma ideia, nem uma caixa de fósforos. Falta-me a lábia, a segurança dos modos, a vontade de argumentar. Uma miséria. Estivesse a minha sobrevivência dependente dos meus dotes de vendedora e muita fominha havia de passar.

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publicado às 02:50

Estendais

por MC, em 24.03.16

 

The Laundry Line by David Tanner 2.jpg

 David Tanner, The laundry line

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publicado às 17:39

Detox

por MC, em 20.03.16

O ginásio está cheio de pessoas e movimento, as vozes e barulhos das máquinas amortecidos pela música que as colunas debitam, a batida vigorosa a inflar energia nos mais renitentes. Na frente da imensa parede espelhada do fundo da sala, os rapazes meneiam-se para um lado e para o outro de pesos nas mãos. Ensaiam posições arrevesadas, posam de músculos retesados e semblantes carregados, a sobrancelha levantada a revelar o esforço displicente, as roupas vistosas manchadas do suor da labuta.

As raparigas correm nas passadeiras alinhadas junto às grandes paredes de vidro, as sapatilhas coloridas a calcorrear quilómetros, os olhares delas percorrem o recinto e demoram-se, avaliativos, nas lides dos moços. Entreolham-se a espaços, num riso cúmplice de apreciação ou troça.

Ao fundo, na penúltima passadeira, um homem de idade caminha lentamente. No tapete quase parado, esforça-se por continuar a levar um pé à frente do outro, a perna esquerda revela o arrastar característico das maleitas vasculares, o braço sem vontade própria inerte ao longo do corpo. Na passadeira ao seu lado caminha calmamente a mulher, o cabelo grisalho preso num singelo rabo-de-cavalo, os olhos sempre atentos aos movimentos lentos do homem.

As meninas estão agora a fazer um intervalo retemperador. Conversam entre si em frente das passadeiras paradas, enquanto bebem golinhos de água ou sumo das garrafinhas coloridas que trazem consigo. Uma delas dá um trago da sua bebida de tom violáceo e faz um involuntário esgar de desagrado. O idoso oferece-lhe um sorriso solidário: “coitadinha, está azedo, está? Se calhar esqueceu-se do açúcar…”

A rapariga reparou no casal pela primeira vez e sorriu também, respondendo com a voz desnecessariamente elevada: “não, não, isto não é doce!” E acrescentou, no mesmo tom alto e pausado: “é uma bebida detox”.

Os velhotes miraram a bebida com ar confuso, o que instou a jovem a acrescentar o generoso esclarecimento: “então, é assim uma espécie de bebida com ingredientes que desintoxicam o organismo; esta, por exemplo, tem sementes de chia, pepino, couve roxa e beterraba.” Conclui, nitidamente satisfeita com aquele seu momento de interacção educativa. As outras anuem com acenos de cabeça e exemplificam beberricando elas próprias as suas bebidas multicores.

“Ah, muito bem… nós nunca bebemos isso”, confessa o velhote, “ comemos é sopa”.

“Então, homem, vai dar ao mesmo. Não vai?”, pergunta a senhora com um sorriso afável. A questão faz as raparigas abanar a cabeça, num misto de incredulidade e condescendência.

“Claro que não!”, explica a primeira, com um revirar complacente dos olhos. E continua, na senda da generosidade educativa: “esta bebida é diferente: estes produtos são superalimentos e quando chegam ao estômago espalham-se i-me-di-a-ta-men-te no sangue e vão pelo corpo inteiro a eliminar as toxinas, até limpam os neurónios, que são umas pecinhas onde o cérebro guarda a inteligência! É por isso que convém ir tomando e fazendo exercício, para circular o sangue e fazer os superalimentos espalharem-se mais depressa. Estão a perceber?” – questionou, procurando assegurar-se de que a mensagem atravessava com clareza o tolhimento baço dos receptores. 

O casal idoso soltou um “ah…” fraquito e comprometido e as meninas voltaram às corridas, agora com o ânimo redobrado do dever cumprido. Os velhotes continuaram a caminhada lenta, o homem em nítido esforço de ressurreição dos membros ausentes. Um sorriso, contudo, consegue romper o semblante de esforço. “Se calhar, alguém havia de desenganar as miúdas…”, murmura. “Talvez dizer-lhe uma coisa ou duas acerca da existência do fígado e dos rins… sei lá.”

“Naaaa…” dizem em simultâneo e olham-se longamente com largos sorrisos a arregaçar as rugas.

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publicado às 18:34

Beijo

por MC, em 10.03.16

The kiss, 1930- by Antonio Arissa.jpg

 Antonio Arissa,The kiss, 1930

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publicado às 00:14

Queque

por MC, em 06.03.16

Os corredores do hipermercado fervilham na azáfama de sexta-feira à tarde. As pessoas circulam apressadas e alheias à presença dos outros, a deitar contas de cabeça ao muito que ainda têm de fazer, o cansaço de uma semana de trabalho a vergar os braços que empurram os carros. As filas das caixas alongam-se como carreiros inconsistentes de formigas, as pessoas enervam-se com a demora, a impaciência percebe-se nos olhos e nos gestos.

A fila mais curta é a da caixa prioritária, onde algumas pessoas arriscam a espera, lançando de quando em vez olhadelas furtivas por trás do ombro, pesando a eventualidade de alguém vir a usufruir do privilégio de passar à frente. Uma senhora abeira-se do início da fila e declara, num tom desnecessariamente alto: “desculpem, mas esta caixa é prioritária e eu tenho o direito de passar primeiro, porque trago uma criança!” As pessoas olham para ela, num misto de aborrecimento e resignação que rapidamente se transforma em surpresa. A senhora é alta, jovem e vistosa. No braço traz uma graciosa carteira de onde espreita a ponta de uma revista, na mão o telemóvel de capa cor-de-rosa. De compras, nem sinal; criança, muito menos.

Alguns metros atrás, vem o carrinho das compras, uma pequenita sentada na cadeirinha meneia-se rapidamente para um lado e para o outro, agitando uma nuvem de caracolinhos loiros que voam em todas as direcções como pequenas molas douradas, o homem a empurrar, meio escondido atrás da miudita, talvez encavacado com o despudor da senhora.

As pessoas olham para ela, embaçadas com o espavento da situação, uma senhora ainda repara: “mas a menina já é crescida… e nem está ao colo”, mas já a outra puxou o carrinho para a sua beira, já estabeleceu um perímetro só seu na frente da passadeira rolante, escudada na postura defensiva da anca, já abalroou o respeitável público com o seu arrojo justiceiro. Absolutamente indiferente aos olhares fuzilantes, às respirações ruidosas e iradas, ao bater recriminador dos pezinhos, a senhora continua a distribuir as compras no tapete rolante, até que a pequenita perguntou: “mamã, onde está o meu queque?”

A senhora interrompe a tarefa para oferecer à menina um sorriso tranquilizador: “deve estar aqui no meio das compras, querida. A mamã já dá.”

“Quero agora”, reivindica a garota, “quero agora, tenho fome”. A senhora deita ao homem um olhar interrogativo e dirige-se-lhe pela primeira vez desde que estão ali: “Ó Artur, que é do queque da menina?” O Artur encolhe os ombros, embaraçado, e meneia discretamente a cabeça para um lado e para o outro. Ela devolve-lhe um olhar inquisitivo, sobrancelhas franzidas de insatisfação, e murmura: “Não trouxeste…?” Ao que ele repete o movimento negativo da cabeça. “Então tu não viste a fila para a padaria? Mais de trinta números à nossa frente!” justifica-se, corado. E acrescenta, abrindo muito os olhos, como quem quer fundamentar a sua razão: “E tu estavas cheia de pressa, não estavas?”

“Ó Artur, deixa-te de desculpas! Parece impossível! Sabes bem que a miúda quer aquele bolo sempre que vimos aqui! Ela está farta de o pedir, desde que entrámos! Valhamedeus, Artur! Era só o que faltava!”, metralha, a irritação a serrar-lhe os dentes. “Anda, mexe-te!”, instiga-o. O Artur olha-a aturdido e um “quê?” sumido e raquítico solta-se dos lábios secos. “Vai lá buscar a treta do bolo!” berrou-lhe, abespinhada – e virou-lhe as costas para ensacar os últimos artigos.

A menina da caixa, aturdida, ensaia o discurso da sensatez: “a senhora desculpe, mas isto não pode ser… a senhora passou à frente dos outros clientes que já estavam na fila e agora não é correcto ficarmos aqui todos à espera do senhor… quer dizer… do queque… não é?”, terminou, a voz a sumir-se-lhe na garganta à medida que a senhora endurecia o olhar e a postura, os ombros levantados e o corpo empertigado em posição de guerrilha.

“É que nem pense! Era o que faltava! Eu tenho os meus direitos, ouviu? E não vou permitir que ninguém os ponha em causa, ouviu bem? Nem a senhora nem ninguém, percebeu? Não querem lá ver? O seu patrão não lhe ensinou que o cliente é que tem razão? Não sabe que eu posso pedir o livro de reclamações? Ora essa! O respeitinho é muito bonito!” E ali ficou, no palco improvisado do átrio do hipermercado, a plateia embasbacada e dormente perante a pobreza crua da comédia inesperada.

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publicado às 22:46

007

por MC, em 02.03.16

007.jpg

 

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publicado às 23:12


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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